INTRODUÇÃO
Você se chama João (ou Maria, ou Peter, ou Samarah... ou não). Caminha em uma das inúmeras calçadas da cidade de São Paulo. Vai pelo mesmo trecho, conhecido de sua vida inteira (ou alguns anos, ou alguns meses, ou dias... ou apenas por um curto tempo, que lhe parece eterno). Segue com a cabeça atribulada, que força seus olhos cansados a se pregarem no piso duro, poucos centímetros à frente dos bicos de seus sapatos. Seus ouvidos se concentram no som de seus passos e filtram apenas os sons amigos, velhos conhecidos. É assim que você segue, vivendo na metrópole.
O esbarrão, no entanto, se torna inevitável. Você se assusta e gira nos calcanhares. Procura pela pessoa (ou por um poste, ou um muro, ou uma árvore bravia... ou pela realidade) que colidiu com você. A princípio, não identifica o que ocorreu. Aos poucos tudo vai começando. Ergue as mãos, levando-as ao peito (onde sente a pele saltar com a taquicardia), depois permite que a direita suba, cobrindo sua boca (onde um grito órfão é obrigado a repousar contra a vontade). Por fim, ambas se dirigem para seus olhos (que você insiste em manter abertos). Mesmo com os olhos cobertos, você não é capaz de deixar de ver. Em algum ponto (sim, você percebe nitidamente, apesar de ainda não assumir), no instante em que sofreu o esbarrão e seus olhos se despregaram do caminho monótono, você se deixou fisgar. Acha que não?
Tudo ao seu redor eram nuances de cinza, perdidas entre visões em branco e preto de sua realidade. Os sons eram apenas rangidos secos de borrachas e gritos sufocados de metais contra o concreto. Mas eram assim antes de você sentir o esbarrão. Agora você vê o grande monstro gentil que é São Paulo (e São Paulo é realmente um monstro enorme). Não apenas tem a visão dele, mas sente-o movendo-se ao seu redor e abaixo de seus pés, sacudindo sua vida enquanto se mostra a você. Desequilibrando-se, você toca em uma parede em busca de apoio. E assim permanece durante um bom tempo. Apenas ouvindo as histórias que ele lhe soçobra aos ouvidos. Seus olhos descobertos vão ao encontro de um viaduto, que se move, tal qual uma serpente magnífica. Ela pisca os olhos para você enquanto sorri. Transmite segredos de tempos em que centenas de homens cavalgavam seu dorso aramado. Ajoelhando-se no chão, você toca nos passos já passados (alguns há pouco, outros há uma eternidade). Acaba resvalando nos mistérios de seus antigos donos (sim, pois os passos agora pertencem à cidade). Descobre histórias, lendas e causos interessantes (mas, no momento, apenas saboreia e reserva: assombroso, assustador, cômico, querido... e prossegue assim).
As cores que lhe saltam aos olhos agora o impressionam tanto quanto os sons. As vias principais transbordam de tudo o que você perdeu durante o tempo em que se distraía (ou era cego, ou covarde, ou apenas incrédulo... ou não) fitando os próprios sapatos. Agora você percebe, não é? Enquanto vê as pessoas passando atribuladas, sem que vejam o que você passou a perceber. Você era como elas até há poucos instantes. Até o esbarrão despertar seus sentidos. As cenas impressionantes escapam entre os dedos delas. Por mais crispados que estejam. Colidem com seus olhos e ouvidos, permitindo que absorva todos os detalhes.
Tudo isso não leva mais do que o tempo necessário entre a primeira e a segunda batida de seu coração para acontecer. Assim que você se auto-indaga a respeito do motivo de nunca ter percebido tudo isso antes, a pergunta morre imediatamente. Não importa. Apenas o que vem à frente é importante. Sua vida não tem mais as amarras de seu mundo íntimo e tão rigidamente erguido. Quando você se ergue e bate a fuligem das mãos, não vê o pó que é levado pela brisa, mas sim uma fiada de vidas. Vidas que pisaram anteriormente naqueles mesmos grãos de poeira.
Você foi maculado pela cidade. A partir de agora (ou um instante atrás), sua forma de ver o mundo mudará (ou está mudando... e continuará mudando sempre).
Deste ponto em diante, você está preparado. Sofreu o esbarrão (encontrão, tropeço, empurrão... ou não). Seus olhos foram abertos. Você recebeu o convite. Aí está ele: siga em frente.
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